3/31/2005

Saudade dá boas letras (3): Marisa Monte, A Saudade não passa

Mais um ano se passou
Desde que você deixou
A saudade aqui comigo
Eu pensei que fosse fácil
Esquecer o seu abraço
A lembrança continua
Sofro, choro pelas ruas
Busco por notícias suas
Não te acho em nenhum lugar
Sinto falta de você
O que fiz pra te perder?
Preciso tanto te esquecer

A noite é longa
O dia sem graça
Eu já fiz de tudo
A saudade não passa (bis)
Cadê o mundo
Que eu vivia
E você carregou?

Minha vida mudou tanto
Quando deito, vem o pranto
Não consigo mais dormir
Já não sei o que fazer
Outro amor não sei querer
Preciso tanto te esquecer.

Saudade dá boas letras (2): Vinicius de Moraes, Chega de Saudade

Vai, minha tristeza
E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não possso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de min
Não sai

Mas, se ela voltar
Se ela voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertados assim, colados assim, calados assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim.
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim

Alexandre Soares Silva na Atlântico

"É de uma maldade de chinês lembrar a um guatemalteco distraído que ele é um guatemalteco.(...) Vamos parar com esse toque do espírito de ficar pensando nas "nossas coisas" quando vemos as coisas dos outros? Pode ser?"

Não gosto

Daqueles vendedores que vão a casa, que nos acham burros, que tentam vender uma enciclopédia que mais parece um livro da Anita, tamanha a profusão de imagenzinhas.

Estação das Chuvas



Ontem fui à estante buscar um livro antigo, antigo apenas porque se passou tanta coisa desde que o comprei, que comecei a lê-lo e que o abandonei a meio. Estação das Chuvas. Passou um século, um milénio. Ontem voltei a pegar nas páginas mornas de Angola, de Olinda, de Lisboa... Voltei a pegar na vida de Lídia do Carmo Ferreira, que nasceu numa família onde as crianças eram todas primas, tias e filhas ao mesmo tempo, fruto da depravação de um homem. Era Angola a 11 de Novembro de 1975, quando Agostinho Neto proclamou a independência e as tropas da África do Sul subiam rapidamente até ao Chão de Chela. Era o tempo em que Lídia acordava de noite e ainda vislumbrava as alforrecas do mar dos seus sonhos a esgueirarem-se pelas paredes do quarto.

O novo Joaquim José dos Santos (5)

Mas não se pense em Joaquim da Amélia, ou melhor, Joaquim José dos Santos como um herege. Assim que amadureceu como homem, o que sucedeu precocemente, apegou-se à religião como o snobe adere a tudo o que pertence ao mundo desenvolvido e civilizado. Para Joaquim, a religião era algo de palpável, um rosário de normas e de boas maneiras que qualquer homem que aspira à grandeza deve procurar compreender e praticar. O primeiro livro que comprou foi, por isso mesmo, a Bíblia, de que era profundo conhecedor. Durante muitos anos, quando começou a falar em sociedade, utilizava a passagens do Antigo Testamento para fazer as suas próprias metáforas. Isso, até se iniciar o seu processo de refinamento, altura em que preferiu passar a citar as grandes obras gregas, pois temia ser confundido com algum provinciano. Mesmo assim, junto dessa Igreja que tanto lucro lhe deu, continuou a expor os seus dotes de grande conhecedor bíblico, embora o seu poder retórico ficasse bastante aquém da sua sapiência.

3/30/2005

Saudade dá boas letras: Maria Rita, Saudade

Veja bem, meu bem
Sinto te informar
Que arranjei alguém
Pra me confortar
Este alguém está
Quando você sai
Eu só posso crer
Pois sem ter você
Nestes braços tais

Veja bem, amor
Onde está você?
Somos no papel
Mas não no viver
Viajar sem mim
Me deixar assim
Tive que arranjar
Alguém pra passar
Os dias ruins

Enquanto isso, navegando eu vou
Sem paz
Sem ter um porto
Quase motro, sem um cais
E eu nunca vou te esquecer, amor
Mas a solidão deixa o coração
Neste leva-e-traz

Veja bem além
Destes fatos vis
Saiba: traições
São bem mais sutis
Se eu te troquei
Não foi por maldade
Amor, veja bem
Arranjei alguém
Chamado saudade

Filhos de terra (4)

Embora nos manuais se fale da hegemonia do catolicismo como algo transversal a toda a sociedade, a verdade não é bem essa. Existem locais tão isolados que mesmo os deuses são outros. É a terra, o vento e o fogo a quem se dirigem as orações e os valores são pouco ou nada cristãos. A bondade é uma coisa das sociedades desenvolvidas, da cidade, se quiserem. Na profundidade dos campos, apenas existe a terra que dá frutos e rio que dá peixes. Deus é um desconhecido, uma invenção inútil nos seus dias e noites. Isto acontece em locais que não aparecem nos jornais mas apenas nos mapas mais completos. São paragens isoladas que, durante o Inverno, não recebem mais do que quatro ou cinco horas de luz por dia. Trata-se de povoações ancestrais instaladas no fundo de vales intocáveis, como chagas insignificantes cravadas numa prega de pele que ninguém vê. Mas descanse-se o leitor, que não foi numa terra assim que nasceu Joaquim. Nos campos que o acolheram havia Deus e havia Igreja; só não havia bondade nem ninguém que a ensinasse. Talvez por isso, Joaquim nunca a aprendeu.

Eu ainda sou do tempo...

... que havia o My Moleskine.

Educação Sentimental, aqui.

3/29/2005

A Páscoa

A Páscoa deveria ser o feriado cristão mais importante. O facto é, no entanto, que ela passa por nós sem darmos conta.

Pronto há um feriado e até se reune a família, mas para os mais distraídos, e não muito religiosos, não se percebe muito bem porquê.

Realmente na televisão passam alguns filmes sugestivos. Ben-Hur , Quo Vadis,...será que é a semana do ciclo de cinema dos anos 50? Não, também há A Vida de Cristo, e até algumas missas. Esse telefilme em que Cristo não é muito convincente, já tinha visto antes. Porque estarão a dar outra vez? E missas ao domingo, é normal.

Se bem que estou distraído com o almoço de família e a por em dia a conversa com os meus primos que só vejo nestas ocasiões. Não reflicto muito no assunto.
Nesse dia nunca dou comigo a pensar que estamos a celebrar a morte e a ressurreição de Cristo.(é isso não é?)

Certas mulheres...

Os óculos escuros enganam-nos tanto a respeito das mulheres como a silicone. Podemos apaixonar-nos por uma mulher de óculos escuros e morrer de susto quando ela os tira.

Literatura de referência

Novas entradas para a lista de blog de consulta obrigatória: From Tokyo With Love, Xanel Cinco, Sushi Leblon, Quase Famosos e Fora do Mundo. A conferir aqui ao lado.

3/28/2005

Da natureza das viagens

Acontece por vezes, isso de serem os outros a fazerem as nossas viagens. Mesmo as de sonho.

Música perfeita para dias feios (um ano depois ou sempre que chove)

Ooh, Stop.

With your feet on the air and your head on the ground,
Try this trick and spin it, (yeah) yeah,
Your head will collapse but there’s nothing in it,
And you’ll ask yourself:
Where is my mind?


Way out in the water,
See it swimming?

I was swimming in the Caribbean,
Animals were hiding behind the rocks,
Except the little fish,
But they told me this is where it’s gonna talk to me honeybunny:
Where is my mind?

Way out in the water,
See it swimming?

With your feet on the air and your head on the ground,
Try this trick and spin it, yeah,
Your head will collapse but there’s nothing in it,
And you’ll ask yourself:
Where is my mind?

Way out in the water,
See it swimming?

PIXIES

O destino de Joaquim José dos Santos (3)

Nascido em 1889, embora nos cadernos do Registo Civil figure o ano de 1901. Mas nem mesmo ele sabia desse pequeno e insignificante pormenor, já que a sua mãe cedo se esqueceu de contar os anos do crescimento do filho e a criança, e depois o homem, nunca tiveram uma relação muito boa com o tempo e com a passagem deste. Aliás, o tempo nunca existiu para Joaquim; o presente sempre foi mais importante do que o passado ou o futuro, talvez porque desde sempre apenas sentiu o impulso da sobrevivência como regente único dos seus actos. Por vezes, a nascença é uma marca indelével no destino de um homem; para Joaquim, pelo menos, assim foi. Talvez por isso, sempre tenha aparentado ser mais velho do que realmente era. Claro que não se trata daquela diferença de dois anos, de todo. Não, embora de feições agradáveis e um tanto ou quanto fidalgas, Joaquim da Amélia nunca pareceu ter a idade que tinha. Mesmo em miúdo, já as rugas do seu futuro destino lhe estavam discretamente marcadas no rosto e lhe aumentavam o ar severo, que não era só culpa de umas sobrancelhas de carvão carregadas. Podemos dizer que Joaquim nunca foi uma criança e nunca o chamaram de menino. Já as velhas que com ele trabalhavam nos campos lhe tinham uma certa mania, embora na sua idade não pudesse aparentar nada mais do que inocência. Viam nele uma ameaça velada, como se comportasse dentro de si algo de repugnante. Mas nada diziam, pois também nele viam uma força punitiva que as obrigava a resignarem-se. Mas em defesa de Joaquim, podemos dizer que não passavam de velhas azedas, meio enlouquecidas pelo paganismo inerente a quem vive perdido entre montes e rios. Estavam, enfim, mais para bruxas que para beatas.

3/26/2005

Quote

"A democracia é a pior forma de governo, exceptuando todas as outras já tentadas".

Sir Winston Churchill

3/24/2005

O respeitável Joaquim José dos Santos (2)

A vida do Joaquim da Amélia, que morreria usando o mais respeitável título de Joaquim José dos Santos, é o exemplo em carne das voltas que a vida dá e que o que hoje é, rapidamente deixa de o ser. Mil foram as oportunidades que a vida teve de se desembaraçar deste ente pouco querido, embora em todas elas tenha falhado por uma unha negra. Nem as pessoas nem a sorte gostam de homens que não podem definir, e era exactamente isso que Joaquim era: a estridência de um raio que cai na terra seca e rachada de Agosto. Um homem incompreensível, menos bom do que mau, jamais amado e por muitos odiado. Uma mistura de Deus e de Diabo que desafiava as próprias leis do universo e que só a Antiguidade poderia ter aceite e compreendido na sua plenitude; uma sinfonia irrepetível e pessimamente executada que fere os ouvidos do seu público, mas mesmo assim o enfeitiça e impede de abandonar a sala.

3/22/2005

What´s going on

Hoje e ontem entretive-me bastante a ver os debates na Assembleia da Républica, sobre a apreciação do programa de governo do PS de Sócrates.

Sócrates repetiu textualmente o que disse na campanha eleitoral como um artista que repete a fórmula que ganhou sem a coragem de avançar mais, e com isso perdendo algum brilho.

Portas e o PP decidiram ignorar o programa de governo e atacar Freitas do Amaral. Ridículo! Freitas mostrou-lhes ainda mais o ridículo em que incorreram com a sua cultura e dignidade.

O PSD divertiu, começando a dizer que será uma oposição construtiva e em prol do país para logo depois ser tão vago nas suas críticas(?) como de vago acusou de ser o programa do PS.

Depois de tanto entretenimento fui ver algo de sério. O Sporting -Porto de ontem á noite em Alvalade era um jogo atraente e confortável para alguém que como eu é adepto do Benfica. Dá sempre prazer ver dois adversários engalfinhados, ficando a contabilizar com qual dos resultados iremos ganhar mais. Ganhou o Sporting. Optimo, era o que mais nos ajudava. Será que é desta que o Benfica vai lá?

And thats whats going on...

PS - Não me referi aos partidos da esquerda...mas pensando bem também não me lembro muito do que eles disseram. Deve ter sido sério e pouco me entreteu.

A estátua de Franco

Há uma rua em Salamanca que tem uma placa de azulejo azul e branco na qual só reparei muito tempo depois de ter chegado à cidade, ainda que estivesse colocada por cima do supermercado onde a vodka ranhosa era mais barata: “Calle Generalisimo”. Em resposta ao meu olhar mais desentendido do que atónito, lembro-me do Rodrigo me explicar pacientemente que em Espanha ainda resistiam símbolos vários do franquismo. Tive dúvida idêntica quando um amigo meu do Rio me dizer que estava a preparar um seminário para apresentar na Fundação Getúlio Vargas.

O governo de Zapatero resolveu esta semana, meu atabalhoadamente, retirar aquela que era a última estátua de Franco na capital espanhola. Obviamente, os protestos não se fizeram esperar: uma trintena de saudosistas ajoelharam-se diante de velas junto ao local agora vazio, o PP insurgiu-se contra a medida, um conhecido colunista escreveu que o método utilizado pelo governo não tinha sido o mais correcto.

Concordo com o colunista, por uma razão apenas: a estátua foi retirada em hora considerada “discreta”, enquanto em minha opinião tal medida deveria ser feita em plena hora de ponta, com o máximo de testemunhas possível, sem medos nem hipocrisias. Talvez exista outra razão que considere válida: a medida peca por tardia.

O motivo do ministério do Fomento para a retirada da estátua prende-se com uma tal obra pública. Mas não só. Respondendo a críticas da oposição conservadora, um membro do PSOE afirmou que a eliminação da estátua se justifica naturalmente, uma vez que a transição também é a progressiva supressão dos símbolos franquistas. Eis o leit motiv da medida, finalmente.

Assim, percebe-se que a Espanha democrática prefere não evidenciar ataques ao Estado Novo espanhol, preferindo dissimula-los. Sem necessidade. Um país que se torna democrático tem o dever de acabar com símbolos fascistas. Não numa tentativa e “apagar” o passado - com alguns advogam -, mas porque a democracia não pode fechar os olhos a esse passado. Não pode haver uma estátua de Franco no centro de Madrid, não pode haver uma estátua de Sadam Hussein em Bagdad, não pode haver uma Ponte Salazar. Não porque precisemos, para construir a nossa democracia, reduzir a escombros os símbolos do passado. Mas porque não podemos deixar que a impunidade vigore no nosso quotidiano através da ostentação do despotismo passado. Há marcas da história que se curam melhor depois de disfarçadas. As estátuas, as placas, as pontes são algumas dessas.

O Hopper que se segue

Talvez esteja na hora de trocar este - como diz o Lameira - noir do Hopper por algo mais condizente com a estação. Aceitam-se sugestões. Por mim, talvez aquele quarto com vista para o mar...

I can see clearly now

3/18/2005

Memórias Indesejáveis (1)

Infelizmente, Joaquim José dos Santos viveu todos aqueles anos. Se tudo corresse como previsto, nunca seria considerado o homem singular que na verdade foi, pois o normal correr dos tempos se encarregaria de fazer esquecer o seu nome. A sua história, ou a ausência dela, não sobreviveria jamais ao suceder das estações: diluir-se-ia nas tempestades de Inverno e secaria sob o sol escaldante dos campos onde tinha nascido e inevitavelmente morreria. Em boa verdade, houve um sem número de ocasiões propícias a que este nome jamais representasse o que quer que fosse, a começar pelo seu próprio nascimento. O próprio verbo nascer pode coadunar-se pouco com o momento em que este homem veio ao mundo e assumir um pretensiosismo de classe nada desejável. Joaquim da Amélia, como foi conhecido nos primeiros anos da sua vida, não nasceu; antes, foi parido, como o são os bezerros nas noites silenciosas em que a lua muda. Entre uma árvore e outra, entre o som das corujas, o nado que Deus quis que fosse vivo foi despojado do ventre da sua mãe, entre terra e sangue. Uma alma mais atenta às questões míticas ou do religioso podia facilmente adivinhar que quem sobrevive a uma entrada assim neste mundo fica inevitavelmente marcado e imune a muitas adversidades. Mas, para tal, era necessário que houvesse uma alma por perto e, infelizmente, não foi esse o caso: Amélia ofereceu ao mundo o seu filho indesejado na mais completa e absoluta solidão.

e. e. cummings


os montes
como os poetas vestem-se
de pensamento púrpura contra
o

magnífico clamor do
dia
torturado
em ouro,que agora

em espiral
sucumbe
exalando uma alma vermelha para o escuro

por isso
senhor dos olhos sombrios
penetra
os doces portões
do meu coração e
toma
a
rosa,

que perfeita
é
Com mãos que matam

Carta do Leitor (os tais "sinais")

Faz mesmo sentido que o DN disponibilize metade de uma página para que Jorge Coelho propagandeie o "seu" governo? É que faz lembrar, embora eu não concorde com o texto, os tais sinais de que fala o comentador abrupto.

Lisboa, como ficas bem ao sol

As mulheres, toda a gente sabe, são as primeiras a notar câmbios de estação. Na blogosfera, os ecos do termómetro pela Ana Sá Lopes e pela Sofia do Mal lembram-nos dos avanços do sol. E de como Lisboa é bela sob esse sol. Salamanca, que era bonita mas cinzenta, demorava a despertar para o Verão. E não tinha os tais "nacos de Tejo" dos quais nos lembramos quando estamos longe.

As cabeças que rolam

A ser verdade que as FARC contribuíram com 5 milhões de dólares para a campanha eleitoral do PT brasileiro em 2002, então Lula está numa enorme embrulhada. É que fica difícil explicar que a cúpula do PT – e o próprio Lula – não tiveram conhecimento do encaixe desse dinheiro. Lula já veio dizer que, se a história da Veja se confirmar, então várias cabeças “vão rolar”, o que significa que os responsáveis vão ser expulsos do partido. Contudo, essa é uma maneira fácil de Lula de desresponsabilizar. Quem se devia demitir, caso a história seja verdadeira, seria o próprio Lula, que se elegeu com dinheiro de terroristas.

Já lá vão três anos durante os quais o ex-metalúrgico se manteve à tona de qualquer crise institucional. Há um ano, o escândalo Valdomiro – que envolveu o seu braço-direito, José Dirceu, e envolvia corrupção a mais alto nível – não pareceu sequer roçar na aura de bom-menino-que-não-via-nem-sabia de Lula. Depois foi aquela gaffe de primeira-dama, que resolveu plantar uma enorme estrela vermelha – que até vem a ser o símbolo do PT – nos jardins do Planalto, que são área protegida e que qualquer modificação precisa do aval de Óscar Niemeyer. Em qualquer país europeu, esta dita gaffe necessitaria de ser explicada até à exaustão, mas a comunicação social brasileira não se mostrou muito preocupada.

Talvez o presidente brasileiro precise que alguém lhe explique que ser presidente de 180 milhões de pessoas é difícil, que às vezes há uns senhores menos bem intencionados que roubam e tem fotografias do tempo em que almoçavam juntos ao Domingo, que às vezes caem pontes e explodem fábricas e que tudo isso afecta o desempenho do seu mandato e prejudicam a sua imagem. E que há alturas em que se pede que o responsável máximo tome para si a responsabilidade.

Elis II

Num concerto em Madrid, em Março de 1978, Elis Regina recitou um texto, no mínimo, premonitório. O El País traduziu-o assim: “Ahora retiran de mí el velo de carne, escurren toda la sangre, afinan los huesos en haces luminosos. Y ahí estoy, en el salón, las casas, las ciudades, parecida a mí. Un esbozo. Una forma nebulosa hecha de luz y sombra. Como una estrella. Ahora soy una estrella.”

Irmãs McCartney

Se aos 15 anos eu tivesse lido uma notícia que dissesse que o senador norte-americano Ted Kennedy tinha fechado a porta a Gerry Adams e preferido a companhia das irmãs McCartney talvez tivesse percebido mais cedo quem são os bons e os maus.

Elis

Caso tivesse sobrevivido a uma dose letal de vermute e cocaína, Elis Regina tinha feito ontem 60 anos. E talvez pudesse estar a fazer o que nunca pode: ter uma casa no campo, onde pudesse plantar seus amigos, seus discos e livros... E nada mais.

Cabo Verde

Como não conheço o arquipélago de Cabo Verde, solicito ao Professor Adriano Moreira uma “bolsa de investigação” para ver se aquilo vale ou não a pena ser integrado na União Europeia. Um pacote de sete noites para duas pessoas, regime de pensão completa. Nada de extraordinário.

PS: Agradeço ainda que não me mandem pela Abreu Viagens nem num avião da Air Luxor, a fim da minha imagem desse ultramar desconhecido não ser afectada pela incompetência nacional.

3/16/2005

Lamentável

O título obviamente refere-se a Santana Lopes. Este senhor realmente não sabe quando parar. Após uma actuação lamentável como primeiro ministro, foi lamentávelmente demitido pelo Presidente da Republica por incompetência.

Com grande cara de pau recandidata-se ás eleições legislativas, e faz uma campanha lamentável. É derrotado a toda a linha proporcionando ao seu partido o pior resultado da sua história. Lamentávelmente não sai da política. Qualquer outro homem de bom senso e com dignidade sabe ver quando não está bem...

Lamentávelmente Santana Lopes não o sabe e reocupa o lugar como presidente da câmara de Lisboa que tinha deixado para se tornar primeiro ministro (sem ser eleito), afastando o seu substituto com grande cara de pau (novamente).

Há que notar que Santana Lopes venceu as eleições para presidente da Câmara de Lisboa por margem mínima apenas pelo seu marketing eleitoral ser melhor do que o do seu adversário João Soares, presidente anterior com obra feita. Não se pode dizer que Lisboa esteja melhor com Santana Lopes, muito pelo contrário.

É realmente lamentável.

3/13/2005

Pasión

No me olvides
yo me muero
Amor
mi vida es sufrimiento
Yo
te quiero en mi camino
Por vos
cambiaba mi destino

Ay,
abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos.

Tengo
un corazón penando
Yo sé
que vos lo está escuchando
Con
mil lágrimas te quiero
Pasión
sos mi amor sincero

Ay,
abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos.

3/11/2005

O Quereres

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'nroll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inseticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

Bethânia, com letra do Caetano

3/09/2005

Ouvido - that time of the night

At that time of the night
When streetlights throw crosses through window frames
Paranoia roams where the shadows reign
Oh, at that time of the night

At that time of the night
Your senses tangled in some new perfume
Criticism triggers of a loaded room
Oh, at that time of the night

So if you ask me
How do I feel inside
I could honestly tell you
We've been taken on a very long ride
And if my owners let me have some free time some day
With all good intention I would probably run away
Clutching the short straw

Marillion - Clutching at straws(1987)

3/08/2005

Por mais voltas...

Por mais voltas que o mundo dê ou por mais voltas que se dê ao mundo, encontramos sempre indícios de que só os mais fortes sobrevivem. Os outros vão sobrevivendo ou não. É assim desde sempre. Inútil achar que há momentos de fraqueza que passam despercebidos. Vivemos em constante prova. Somos postos à prova e provamos. Prova dos nossos amores, provas académicas, provas no trabalho...
É perturbador pensar assim, também quero acreditar que há momentos em que tudo pára. Stop.
Será ingenuidade? Será relegar para segundo plano algo que parece óbvio fazer girar o mundo e que ainda assim não queremos que seja?
Ou apenas a vontade de viver "tranquilo"...

Dia de Sossego

Parabéns, Sara.

Um post para o Dia das Mulheres

Gosto de ouvir conversas alheias, obviamente de pessoas que não conheço. Defeito profissional? A ética não condena essa forma de distração. Especialmente quando se espera há mais de duas horas no Aeroporto de Lisboa. Na mesa a seguir à minha, três espanholas quarentonas conversam espanholamente. O difícil era não ouvir a conversa. Pois bem: diziam as bem-postas espanholas, com aquele aprumo madrileno um pouco new rich, que os homens agora eram obrigados a fazer melhor sexo, que elas - pelo menos aquelas bem postas madrilenas - já não aceitavam qualquer um nos seus lençóis caros. Até aí tudo bem, típica conversa fiada de 8 de Março. O meu espanto só começou quando uma delas resolveu contar que estava muito satisfeita com o seu vibrador - que dominava por "el maquinón" - e era um modelo novo que comprara na Califórnia. As outras assentiram, com ar entendido, como quem diz "infelizmente os vibradores espanhóis estão muito aquém dos americanos". E a conversa ficou por ali, como quem debate as descidas da bolsa, a última OPV de uma multinacional ou a valorização do Euro face ao Dollar. Afinal, para que serve o Dia da Mulher?

Tpoe

Tpoe é o título original de um romance do escitor russo Maximo Gorki que tem como título portugês "Três Vidas".

Li este livro pela primeira vez quando tinha 15 anos. O que mais me fascinou nessa altura foi o ser a história de um rapaz pobre mas orgulhoso e revoltado; um justiceiro. No entanto os pormenores da história escaparam a uma mente ainda imatura e insensível ao detalhe.

Estou a relê-lo agora, 12 anos depois. Tirei-o da mesma estante onde estão todos os outros velhos livros que a minha mãe, uma apaixonada pela leitura, guardava.

O livro impressiona-me ainda mais agora que da primeira vez. Apesar de não ter ainda terminado, consigo agora aperceber-me daquilo com que fiquei no meu subconsciente mas não tinha apreendido totalmente.

O personagem principal, Ilia Lunev, neto de um pecador arrependido e filho de um criminoso degredado para a Sibéria, é um rapaz que desde criança é vive rodeado por pessoas de todo o tipo. Ingénuos, frágeis, cruéis...Irá ver os maus serem bem sucedidos e os bons a ficar na miséria. Isto fá-lo questionar a justiça de Deus e a finalidade da vida. Será que deve ser justa? Será que pecar não será uma via para a redenção desde que seja com um bom objectivo?

Mas o que mais me liga ao livro é a minha identificação com Ilia. É um rapaz que lhe repugna tanto as pessoas que prejudicam os outros para seu benefício como aqueles que se queixam da sua miséria sem nada fazerem para dela saírem. É um revoltado que no fim se irá perder por causa da sua auto marginalização.

Máximo Gorki é o pseudónimo de Aleksei Peskov. Foi um escritor russo do início do século XX que para além de Tres vidas (1902) tem como obra mais conhecido o romance A Mãe (1907). Em 1936 o governo da União Soviética deu o nome de Gorki á cidade que actualmente de chama Nijni-Novgorod, em sua honra.


Gorki

3/07/2005

Da utilidade dos Palmiers

O Palmier é um blog simpático e útil. Especialmente porque podemos assistir ao choque entre uma eterna apaixonada do Daniel Oliveira e quase miltante do Bloco de Esquerda e um quase jornalista-sindicalista-comunista, obviamente sempre do contra.

Vrei sa pleci dar nu ma eiw

Nunca pensei que fosse ter esta frase no meu Blog. Só porque foi escrita por uma romena, a Tecla, que passou a Té, e não gosta dos O-Zone, porque já não é nova.

Domingo

Passaram em minha casa antes das 4 da tarde. Pedi um café com pouco movimento, pois era domingo (por domingo entenda-se o estado de espírito condizente com o calendário semanal). Fomos ao Maison, que servia de plataforma na minha adolescência: não voltara lá havia anos, poucas hipóteses de encontrar caras com quem partilhar o meu domingo. Ainda os cafés curtos não tinham chegado, já mais um conviva se sentara à mesa. Alguém que não via desde que entrara na faculdade, mas que não perdera aquela mania horrível de achar que me conhece como ninguém. Mesmo quatro anos sem me ver. Três quartos de hora depois, conseguimos sair com uma desculpa que, de tão esfarrapada, se tornava credível. Segunda tentativa, outro café. A mesma sorte. O Sequeira e o Hugo, com vontade de um domingo nostálgico. Vontade lhes seja feita: meia hora de nostalgias. Quando me deixaram em casa, a frase que ainda não havia sido dita: "Então, novidades?"

3/06/2005

Alguma coisa acontece no meu coração


SAMPA, CAETANO VELOSO

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui
Eu nada entendi

Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João

Quando eu te encarei frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto
O que vi de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio
O que não é espelho

E a mente apavora
O que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes
Quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso
Do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas
Nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue
E destrói coisas belas

Da feia fumaça que sobe
Apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas
De campos, espaços
Tuas oficinas de florestas
Teus deuses da chuva

Pan Américas de Áfricas utópicas
Do mundo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
Que os novos baianos passeiam
Na tua garoa
E novos baianos te podem curtir
Numa boa

Gosto de mulheres hipocondríacas

3/05/2005

Do Governo

Carlos Heitor Cony dizia sobre Getúlio Vargas que os seus inimigos o obrigavam a ir onde ele realmente queria ir. Esta ideia poderia ser aproveitada no contexto da formação do XVII Legislatura.

Vinicius. Por Miucha


Tomara

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais

Gabo


El año de mis noventa años quise regalarme una noche de amor loco con una adolescente virgen. Me acordé de Rosa Cabarcas, la dueña de una casa clandestina que solía avisar a sus buenos clientes cuando tenía una novedad disponible. Nunca sucumbí a ésa ni a ninguna de sus muchas tentaciones obscenas, pero ella no creía en la pureza de mis principios. También la moral es un assunto de tiempo, decía, con una sonrisa maligna, ya lo verás.

Um concerto privado para Nelson Motta

Nelson Motta estava demasiado triste por aqueles dias. Não fazia muito tempo que se tinha separado de Marisa Monte, o Natal aproximava-se asfixiante e a entrada nos quarenta era algo ainda não resolvido. Combinou passar por casa do mestre. Quando chegou ao apartamento, João Gilberto esperava-o de terno, gravata posta, pronto para sair. Nelson estranhou, João Gilberto vivia em casa, escusava-se sempre a sair do território mágico que era o seu apartamento arejado, alto, inacessível. Para mais, dirigiam-se para a garagem: Nelson já ouvira que Gilberto conduzia, mas o facto parecia-lhe estranho. Tudo demasiado confuso, tal como aquela depressão. Passearam na praia, viram o mar, beberam uma água de coco, falaram, ouviram. Depois João Gilberto disse “vamos a sua casa”. Nelson já desistira de fazer perguntas e de entender aquela tarde. Rumaram a casa, a poucas quadras do apartamento de Gilberto. Quando chegaram, o velho retirou da mala do carro o violão. Subiram, Gilberto mandou que Nelson se sentassee dedilhou os primeiros acordes, calmos, penetrantes e melancólicos. Nelson não demorou a entender: Gilberto fazia-lhe um concerto, combatia a tristeza do amigo com a sua música, com a sua arte única.

Boa Noite

Vou começar a escrever como Leoa de Tolstoi...ou melhor, Hei-de começar a escrever. Desculpem, mas Agora tenho sono.
Já me sinto adormecer sobre as letras e, no entanto, vou resistindo. Se o poder do sono fosse menos forte...(há por aí red bull?)
Adoro dormir, e durmo e durmo e durmo..mas também adoro não parar, e não páro, e não páro, e não páro. E quem me conhece sabe. E continuo a resistir. E não páro.
Mas Já chega!
Vou-me deitar. Desculpem, mas Agora tenho sono.
Boa Noite.

3/04/2005

Sommarlek

Fui ha dias à cinemateca ver um filme de Ingmar Bergamn, intitulado Sommarlek ou, em português "Um Verão de Amor".

Confesso que não sou nem nunca fui um consumidor habitual dos filmes de Bergman, nem de filmes do mesmo género. Fui com amigos e com espirito aberto, sabendo também que Bergman é um realizador muito aplaudido e importante na história do cinema...trata-se então de descobrir porquê.

A história, ou melhor o género do filme não realmente dos que me chama ao cinema, mas tenho de reconhecer que não tem nada a ver com o que estou habituado, que geralmente são filmes americanos e comerciais. A intensidade da representação e dos dialogos, sempre cheios de significado e de profundidade, é algo que hoje em dia não se encontra muito, e que tem o seu que de belo.

Uma história trágica mas com um véu de esperança onde facilmente me enamorei pela personagem principal, uma jovem bailarina, intepretada pela actriz Maj-Nitt Nilsson.
O preto e branco de 1951 dá-lhe também outra magia...

Com isto, não poso afirmar que passei a ser um grande apreciador de bergman...mas para alguém poderia considerar um filme destes uma seca, até que não foi tão mau assim.

A vida sem Teresa

Quando ele acordou, Teresa (talvez a mesma de Manuel Bandeira, aquela que tinha cara de perna) não estava nem voltaria a estar. Suicídio? Teresa - que à primeira vista lhe pareceu esquisita, numa segunda vez achou ter cara de perna e que, por último, o prendera para sempre - saíra da sua vida. Deixara de escrever livros enquanto ele a observava do sofá, deixará de fazer amor com ele no chão da cozinha, deixara de ser Teresa e de morar naquela casa amarela e grande, não me recordo se em Ipanema, Copacabana ou lá para os lados do Centro. Teria de ser ele agora a escrever o livro que ele não chegara a escrever, o livro de Teresa. Com ele, com Teresa Dois e o mundo de Teresa sem ele. Um dia, passou por uma rua onde não ia desde que conhecera Teresa. Viu a vida dela sem ele. Uns dias depois, deixou o livro, com uma pedra a pisar as folhas soltas, e desapareceu no mar. Para sempre, por uma questão de dignidade.

O Grande Idiota

Acabe-se com o Tribunal Constitucional. Também com a Procuradoria, os Bombeiros, a RTP e a PT, as Associações de Idosos, o Às Duas por Três, o Abrupto, Belém e São Bento. Acabe-se com esta merda toda. Será que o Grande Idiota* não percebe que se acabasse com todas as instituições que são passíveis de ausência de neutralidade teria de acabar com o Sistema.

*Pode o primeiro-ministro acabar com um Tribunal, neste caso com o Tribunal Constitucional? A sério, só por curiosidade.

O simpático Elevador Lacerda

Os observadores internacionais já referiam, a propósito da última Constituição brasileira, que esta era populista e profundamente nacionalista. Detenhamo-nos no profundamente nacionalista. Nada mais fazia o escrivão do espírito da época do que passar para o texto fundamental a característica maior de um povo: o excesso de auto-contemplação. Foi assim que Salvador se habituou a amar o “panorâmico” Elevador Lacerda, o primeiro (e espero que único) elevador panorâmico completamente fechado, sem uma única janela. A culpa não é do elevador, claro.

E tantos outros...


Adriana Lisboa.

3/03/2005

Sem Nome nº1

Onde passei cinco anos, mal pude estar cinco minutos.

Antes das Oito

O céu branco da manhã, como que acabado de caiar, gelado, impessoal. Estava lá apenas por obrigação, mero funcionalismo. Sem vento, com algo apenas que, caso não fosse tão frio, bem podia ser chamado de brisa. Um cigarro, um café forte. Os primeiros carros, as primeiras pessoas que passeiam, se passeiam. Atrás, as cinzas mornas, as brasas quase mortas, o livro que esperará doze horas no braço do sofá. O dia e a noite, por segundos de ângulo.

Samba da Benção


No disco de comemoração dos 90 anos de Vinicius de Moraes, entre a faixa-depoimento do Chico Buarque e a belíssima Tarde em Itapoã, está o Samba da Benção, com música da Baden Powell. Faz uma semana que esta passou a ser a música fétiche das minhas memórias sobre a Bahia, especialmente sobre Salvador. É o jeito baiano de ser, o riso sensual das mulatas doces. É o terreiro e o candomblé. É a benção de Vinicius aos amigos. É a Bahia. Saravá.

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Se não, não se faz um samba não.

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
Tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguem no mundo vence
A beleza que tem num samba não
Porque o samba nasceu lá na Baía
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração.

3/01/2005

Dia 1

Hoje é dia um de Março.
Sempre gostei de dias 1. Não sei se é por fazer anos num dia um, mas gosto de inícios. Seja do que for.

O tempo é um contínuum(?) a que se sucede a noite ao dia, as estações...Já as horas, os dias, os meses, os aos , os séculos, são tudo coisas que nós inventámos para dar uma certa ordem e noção do tempo á nossa vida.

Sempre quis ter um diário, mas apesar disso, nunca consegui escrever um. A sucessão dos dias, as tarefas, a falta de pacîência sempre me fizeram estar longe de efectivar esse desejo. Pensando bem, ter um livro em que tenho tudo o que fiz, escrito acho que seria algo assustador...neste momento não tenho noção de como e quando fiz certas coisas..apenas sei que as fiz. Se neste momento fosse confrontado com tudo o que fiz, quando o fiz e com quem o fiz, acho que teria um choque, pensando estar a ver a vida de um desconhecido.

Talvez seja por isto que gosto dos dias 1. Parecem ser um novo começo. Um por tudo para trás das costas e começar do zero. Como diz Sergio Godinho, "o primeiro dia do resto tua vida".

Recomeça agora então, 3...2...1...