4/04/2005

O inabalável Joaquim José dos Santos (8)

Mesmo quando os valores se desmoronavam à sua volta e a História tomava rumos que lhe desagradavam, Joaquim soube manter a sua ditosa calma. Não era uma calma natural, isto é, não tinha nascido com ele. A sua impavidez aparente perante as catástrofes não era mais que uma questão de estilo, aprendida à custa da leitura de inúmeros filósofos. Acreditava que só o tolo se deixava toldar pelos achaques dos nervos, e isso ele jamais seria. Quando algo de realmente mau sucedia – e a vida foi pródiga tanto na fortuna como na desgraça –, Joaquim isolava-se: compreendia perfeitamente que à cólera nada mais era do que a zona de atrito entre uma acção biológica e a resistência a esta. Assim, aproximava-se de uma janela e deixava que o ódio ou o pavor lhe toldassem a visão por breves momentos. Nesses instantes febris, o homem abandonava o corpo e julgava-se divino. Eram momentos de lucidez absoluta sobre que decisão deveria tomar. Talvez por isso, Joaquim José dos Santos não nutria pela calamidade qualquer receio. Existe o bem e o mal, existe a sorte e o azar; o proveito que deles se retira depende da mestria do jogador.